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segunda-feira, 28 de abril de 2014

O amor como um fator psicológico no acidente aeronáutico


Matéria jornalística sobre o "noivado em voo" e o romance interrompido pelo subsequente acidente.






Um acidente aeronáutico acontecido no interior do Rio Grande do Sul, em Cachoeira do Sul, em 29 de Janeiro, com um antigo monomotor biplace Cessna 140, não teria chamado tanto a atenção se não fosse pela trágica ironia de ter o piloto- instrutor, A.P.D (22 anos), algumas semanas antes, filmado um pedido de noivado à namorada, T., durante um voo na mesma aeronave que, agora, servia-lhe de sepultura.

Avião cai em propriedade rural e mata dois em Cachoeira do Sul, RS. Duas pessoas estavam na aeronave em uma instrução de voo. (Foto: Marcus Tatsch/Agência Free Lancer/Estadão Conteúdo)

O aparelho se chocou com o solo a apenas dois quilômetros do aeroporto onde era a sua base, falecendo também, além de A.P.D, o piloto-aluno paulista D.K.S. (31 anos). A aeronave pertencia ao Aero Agrícola Santos-Dumont. Sua documentação estava em ordem, mas há relato de que o piloto comunicou via rádio uma pane.
Chocou o contraste entre as cenas alegres do pedido do casamento em 14/12 com os destroços em 29/01, ambos registrados e publicados no Youtube.

O que teria acontecido com a máquina PP-DFW?
O CENIPA deverá esclarecer. É um acidente muito fácil de ter seus fatores contribuintes desvendados, dado à simplicidade da aeronave envolvida.
Para além da tragédia sem comentários, algumas considerações podem ser tecidas, estritamente, sob o foco da segurança de voo.
Conta-se que, certa vez, um piloto teria dito a uma psiquiatra, em uma conversa informal, sobre seu hábito de conversar com seu avião e tratá-lo como um ser humano. A mulher replicou que sua experiência mostrava ser comum esse sentimento entre certos homens e suas máquinas. Porém, advertiu: “_ É normal você conversar com seu avião; mas, por favor, se um dia ele lhe responder, venha correndo para o hospital!”.
O que se infere desse episódio é que existe um limite, no caso do piloto do diálogo, entre o seu amor pela aeronave e o surgimento de uma enfermidade esquizofrênica da qual seria indício o “ouvir vozes”.
Voar é seguro, mas deixará de ser seguro se regras rígidas forem descumpridas.
Assim como um domador de leões, provavelmente, nas primeiras semanas de seu mister deve entrar trêmulo na jaula dos grandes felinos, também qualquer piloto, em suas primeiras horas de voo solo, está suando frio atrás do manche. No entanto, o tempo passa, surgem a segurança e a intimidade entre eles e, no caso de alguns, nasce o amor. Porém, da mesma forma que o domador de leões não pode se esquecer de que está lidando com feras selvagens, sob o controle de sua chibata enquanto ele se mantiver atento, igualmente o piloto não pode se descuidar do procedimento padrão, pois está dentro de uma máquina que voa e que, nada obstante sua paixão por ela, “não pensará duas vezes” antes de cair e matá-lo cruelmente.
No comando do PP-DFW, o jovem instrutor A.P.D. demonstrou ser aquele piloto que amava sua aeronave, tanto que quis com ela compartilhar, muito provavelmente, um evento singularmente importante de sua vida, o noivado com sua namorada T.
Revelou também que aquele seu amor, de alguma maneira, fê-lo desviar do padrão.
Embora menos romântico, seria mais apropriado que o pedido de casamento se fizesse no banco de trás, lado a lado com T, em uma aeronave que comportasse um colega no comando à frente; talvez menos emocionante, mas mais adequado que o voo não tivesse se realizado com passagens baixas, e sim em um nível ou altitude de voo conforme as “regras do ar”.
Evidente que não se quer dizer aqui que esses fatos derrubaram o PP-DFW, mas, de alguma maneira, indubitavelmente, eles constituem a revelação de uma filosofia ou doutrina que contribui para acidentes, porque acidente não é apenas aquele que o piloto provoca por imperícia, mas também o que ele não impede por perícia ou por estar desatento.
Para a segurança de voo, o amor ou a paixão de um piloto por seu avião pode ser um fator humano psicológico a ser considerado pelas instituições e todos os elos SIPAER na prevenção do acidente aeronáutico.

O laudo pericial do CENIPA teve por ponto central a INDISCIPLINA.

sábado, 26 de abril de 2014



ACIDENTE: ETIMOLOGIA

 

O estudo etimológico do vocábulo acidente é interessante.

Trata-se de palavra de origem latina, accidēns, que é particípio do presente do verbo accĭdō, o qual significa “cair para” ou “cair sobre”.

Logo, acidente significa caído sobre (alguma coisa).

Acidente é, então, em um primeiro momento, cair. Mas, por que acidente provém de cair?

Devemos investigar a relação entre cair e acidente.

Cair também vem do Latim, “caděre”, que significa “ir ao chão”. Observamos que “caděre” se liga ao mesmo radical de “caelum” (que significa “céu”); é uma ligação muito lógica, posto que a idéia de cair pressupõe altura ou céu, já que o que cai vem do alto, do céu ou de cima, portanto.

Assim, mais remotamente, acidente significa “caído do céu”.

Histórica e semanticamente[1], sabemos que acidente significa um acaso, mas não um acaso neutro, porque acidente traz uma áurea de negatividade, tem uma certa conotação de “desgraça, infortúnio, falta de sorte etc”.

Como, então, relaciona-se esse sentido atual de acidente (“acaso infeliz”) com a sua etimologia ou com o seu significado mais antigo de “caído do céu”?

Talvez, a conotação de casualidade ou infelicidade do acidente esteja intimamente ligada a um sentido muito especial que os romanos davam ao verbo cair, o qual atravessou os séculos até os dias de hoje: Cair se relaciona com os julgamentos da Justiça.

Analisando o vocábulo julgamento, constatamos que a idéia de julgar instiga no espírito do homem dois sentimentos bem claros, o de divindade, superioridade, altura (céu), porque julgar é o ato de Deus (que está no céu ou no alto), e o de incerteza (acaso) de qual será o julgamento (que é desconhecido ou ignorado). Começamos, assim, a estabelecer algumas ligações entre cair (algo que vem do céu, de cima etc.) com julgar (algo que também vem do céu, do alto etc.).

Ainda, da idéia de julgar, como vimos, vem-nos o sentimento da incerteza do que “cai do céu”.

Assim, encontramos a conotação de casualidade existente no verbo cair, do qual acidente é uma flexão (particípio).

E onde está o halo negativo que cerca o verbo cair e, por conseguinte, a sua variante acidente? Vejamos.

Nos litígios romanos, cair designava o pior, pois era empregado no caso de ser o litigante condenado. Caído era o condenado pela Justiça. Para os romanos, queda, tombo, sucumbência e condenação se equivalem, tanto é que os romanos se referiam à perda de um processo através, justamente, do verbo cair: “causa cadere”, “ in judicio cadere” ou, simplesmente, “cadere” .

Então, quando cair era empregado em um julgamento, significava a idéia “de um mal que veio do céu”.

Portanto, acidente é, no seu berço semântico, “o mal que caiu do céu sobre uma pessoa”, pressupondo o julgamento divino que, sendo-lhe contrário, converteu a incerteza de um dano em um prejuízo efetivo.

Aliás, em suas lições de Latim, ANTÓNIO GOMES FERREIRA ensina que o “c” de “cair” com a conotação de “condenação” levou os romanos a designarem essa letra de seu alfabeto como a “littera tristis”, ou seja, a letra triste... O contrário da letra “a” de “absolvo” (nos julgamentos).

Curiosamente, vemos que a história etimológica de acidente reúne as idéias de céu (a divindade), julgamento (a incerteza) e queda (a perda).


 



1.        Semântica é o estudo do significado, isto é a ciência das significações das palavras ou o estudo da relação entre a palavra e o que ela significa.
Há relação entre a aviação e a melancolia?



A história da aviação é marcada pela abnegação, pelo brilhantismo, pela coragem e pelo suicídio...

Dois dos casos mais pitorescos envolvem os franceses Alphonse Pénaud (1850-1880) e Jules Henri Giffard (1825-1882). 

Pénaud














 Pénaud planejava integrar a Marinha; contudo, as sequelas de uma doença contraída na infância lhe frustram aquele sonho. Então, dedicou-se à invenção de uma máquina voadora, de certo, para sublimação de sua frustração.

Pénaud desenvolveu importantes teorias sobre reações aerodinâmicas, controlabilidade em voo e demonstrou, na prática, o acerto de suas teses na construção de vários aeromodelos sob as formas bem assemelhadas aos aviões e helicópteros de hoje em dia. Seus modelos voavam com a força motriz proporcionada por elásticos retorcidos que giravam hélices.

Em 1876, quando Pénaud desenvolvia suas experiências na invenção de uma máquina voadora “mais pesada que o ar”, o engenheiro francês Jules Henri Giffard já gozava de notoriedade por ter construído o primeiro dirigível do mundo, a hidrogênio e movido por um motor a vapor, realizando uma pequena navegação em 24 de Setembro de 1852. 
Giffard
Incapaz de custear financeiramente as próprias experiências, sentindo que suas teorias não eram seriamente recebidas, em 1880 Pénaud escreveu a Giffard solicitando seu apoio. A resposta de Giffard foi fria e desanimadora, até porque esse engenheiro não acreditava na viabilidade de máquinas voadoras mais pesadas que o ar, razão pela qual desenvolvia suas experiências apenas no campo dos dirigíveis.
Amargurado, Pénaud talhou um pequeno caixão, colocou dentro dele todos os seus projetos e o despachou para Giffard, suicidando-se em seguida. Dois anos mais tarde, em 1882, Henri Giffard também se suicidou, doando seu patrimônio para fins humanitários e científicos...

Também por desgosto, acabou Santos-Dumont por se suicidar, tendo sua saúde emocional agravada pela frustração decorrente do uso militar dos aviões.
Santos-Dumont

Além daqueles que se suicidaram, a história da aviação é marcada pelas mortes violentas de homens cujo desejo de voar estava acima da vontade de viver e era mais forte que o medo de morrer. 

Nos primórdios da aviação, tem-se o exemplo de Pilâtre de Rozier, o primeiro aeronauta do mundo que, estupidamente, morreu em 15 de Junho de 1785, ao tentar a travessia do Canal da Mancha da França para a Inglaterra, contrariando os ventos...  

Pilâtre de Rozie

Lilienthal
Mais recentemente, temos Otto Lilienthal, o qual nasceu em 23 de Maio de 1848 e, literalmente, saltou para a morte em 10 de Agosto de 1896, em Berlim... Antes do fatídico salto, confidenciou Otto ao escritor Meyer Förster (segundo escreveu PAUL KARLSON) que, por vezes, sentia medo do voo em seu aparelho: “Sou chefe de família e tenho outros deveres que não o de descobrir o voo para a humanidade. Se fôsse mais moço e sòzinho, talvez progredisse mais”, disse Otto.  Porém, não deixou as experiências de lado e, mesmo no leito da morte, não manifestou arrependimento: Socorrido à clinica do cirurgião berlinense Bergmann, suas últimas palavras teriam sido “Sacrifícios são necessários”.
Exupéry
 
Há não muito tempo também, Antonine de Saint-Exupéry preferiu arriscar a morte no céu, a ficar na terra sem poder voar. Na verdade, o pai do Pequeno Príncipe vivia perseguido por uma melancolia da qual só conseguia se afastar quando entrava no avião.

Que tipo de sentimento associado à aviação fez Pénaud, Giffard e Santos-Dumont eliminarem a própria vida? Qual a natureza do sentimento que fez Pilatre, Lilienthal e Exupéry preferirem o voo à vida?

 A melancolia, vocábulo derivado do grego (melagcholía). Melan (ós) significa "negro, sombrio, triste, funesto" e cholé quer dizer "bílis, fel, veneno".

Na sua própria origem, o fermento da aviação na aerostação se liga à fuga, ao escapismo dos problemas da Terra, do mundo, em busca de uma felicidade metafísica no céu... 
Assim, deve ser observado que a parte mais substancial da aeronáutica está ligada à França pré-Revolucionária e, portanto, a um período de extrema baixa auto-estima do povo francês que, então, muito provavelmente, encontrava nas recém-descobertas máquinas voadoras uma espécie de lenimento à pobreza, um bálsamo para opressão política das classes dominantes que esmagavam o povo francês com impostos injustos...

A partir da primeira demonstração pública com balão, realizada em Annonay (em 05 de Junho de 1783) pelos irmãos Montgolfier, Paris se tornou febril pelo voo...
irmãos Montgolfier
 
As experiências foram se sucedendo umas atrás das outras, arrastando multidões delirantes para as praças públicas, trazendo-lhes dias de intensa euforia que, momentaneamente, faziam a oprimida população esquecer do despotismo monárquico, imoral e esbanjador, ao mesmo tempo em que proporcionava à desprezada burguesia certo prestígio porque era essa classe que tinha o dinheiro necessário para custear as experiências com os balões.

O desejo pelas máquinas voadoras, por certo, era uma escapatória, um lenimento para o sofrimento político de um povo que vivia sem liberdade...

Realmente, voar é uma metáfora de liberdade por trás da qual pode haver a solidão, a melancolia... Quem são o Pequeno Príncipe e a Fernão Capelo Gaivota senão a projeção de Saint-Exupéry e Richard Bach? Aquele surgiu em um desolado deserto, enquanto este vivia solitário no mar aberto... O que significa a "morte" deles, senão a transmudação da idéia de libertação?

É curioso notar que poucos anos separam a primeira experiência com balão da eclosão da Revolução pela queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, quando o povo de París saiu às ruas para protestar contra o regime monárquico opressor, invadindo a Bastilha (fortaleza que simbolizava o Absolutismo real), libertando os presos e, assim, derrubando o prédio, fatos que simbolizam o início da Revolução Francesa.

 Realmente, a idéia do voo, que também se expressa por metonímia através da máquina voadora (avião, balão etc.), tem um conteúdo simbólico da aspiração espiritual de libertação.

Nas palavras de JUNG, o avião “evoca, então, as forças cósmicas do inconsciente coletivo, perante as quais o ego consciente mede sua impotência. O avião pertence ao domínio do ar e materializa uma força deste elemento. É o domínio das idéias, do pensamento, do espírito”.

Em interessante lição, JEAN CHEVALIER e ALAIN GHEERBRANT doutrinam que “ao mesmo tempo rápido, delicado em seu mecanismo e difícil de manejar, o avião faz lembrar justamente o comportamento na vida, que se assemelha a uma grande aventura iniciática. Dirigir bem exige competência e domínio de si suficientes para permitirem evoluir nos espaços infinitos (...). Aviões que evoluem no céu revelam forças espirituais, potências cósmicas percebidas em nosso espaço psíquico e que se liberam”.

De certa forma, portanto, o amor pelo voo, além de denotar o desejo de liberdade, também realça “a vontade de afirmar o seu poderio no céu apenas para compensar um sentimento de impotência na terra”.

Existe, por tudo isso, um mecanismo psicológico acentuadamente diferente entre as pessoas que têm paixão pela aviação e aquelas que, em lado radicalmente oposto, ostentam medo de avião.

Quanto aos que têm paixão pelo avião, existe sempre o risco da tendência à descompensação, que se traduzirá na intrepidez em voo ou, uma vez em terra, no transtorno depressivo, pela impossibilidade de distinguir a máquina de voar e seus limites do desejo de libertação que não tem limites, ou pela confusão da falta de voo com a inexistência de perspectiva de vida.

Talvez, assim, possamos compreender a coragem dos citados aviadores, não só para envidar suas viagens no céu, como também para colocarem um fim à própria vida na Terra...

Enfim, resta dizer que, do ponto de vista estrito da segurança de voo, a perda da vida de Pilâtre e Otto deve se transmudar, para os estudiosos da ciência aeronáutica, especificamente, da teoria do acidente, em uma lição contínua de dedicação à perfeição, o que equivale dizer à redução probabilística de acidente ao menor patamar possível; se não for encarado dessa maneira o sacrifício da vida de Pilâtre e Otto, dentre tantos outros, a morte desses homens não será mais do que simplesmente história, algo que jaez em um distante passado, que para nada serve senão para a literatura.

Pilâtre de Rozier, Jean-Pierre Blanchard, Augusto Severo,Otto Lilienthal, Salomon August Andrée e todos os demais heróis mortos da ciência aeronáutica devem permanecer vivos, nos dias de hoje, não só na memória da história aeronáutica, mas, principalmente, devem ser lembrados na prática diária da cultura de segurança de voo. Somente assim a vida que eles doaram terá valido a pena.