Há relação entre a aviação e a melancolia?
A história da aviação é marcada pela abnegação, pelo brilhantismo, pela coragem e pelo suicídio...
Dois dos casos mais pitorescos envolvem os franceses Alphonse Pénaud (1850-1880) e Jules Henri Giffard (1825-1882).
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| Pénaud |
Pénaud planejava integrar a Marinha; contudo, as
sequelas de uma doença contraída na infância lhe frustram aquele sonho. Então,
dedicou-se à invenção de uma máquina voadora, de certo, para sublimação de sua
frustração.
Pénaud desenvolveu importantes teorias sobre
reações aerodinâmicas, controlabilidade em voo e demonstrou, na prática, o
acerto de suas teses na construção de vários aeromodelos sob as formas bem
assemelhadas aos aviões e helicópteros de hoje em dia. Seus modelos voavam com
a força motriz proporcionada por elásticos retorcidos que giravam hélices.
Em 1876, quando Pénaud desenvolvia suas
experiências na invenção de uma máquina voadora “mais pesada que o ar”, o
engenheiro francês Jules Henri Giffard já gozava de notoriedade por ter
construído o primeiro dirigível do mundo, a hidrogênio e movido por um motor a
vapor, realizando uma pequena navegação em 24 de Setembro de 1852.
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| Giffard |
Incapaz de custear financeiramente as próprias
experiências, sentindo que suas teorias não eram seriamente recebidas, em 1880
Pénaud escreveu a Giffard solicitando seu apoio. A resposta de Giffard foi fria
e desanimadora, até porque esse engenheiro não acreditava na viabilidade de
máquinas voadoras mais pesadas que o ar, razão pela qual desenvolvia suas
experiências apenas no campo dos dirigíveis.
Amargurado, Pénaud talhou um pequeno caixão,
colocou dentro dele todos os seus projetos e o despachou para Giffard,
suicidando-se em seguida. Dois anos mais tarde, em 1882, Henri Giffard também
se suicidou, doando seu patrimônio para fins humanitários e científicos...
Também por desgosto, acabou Santos-Dumont por se suicidar, tendo sua saúde
emocional agravada pela frustração decorrente do uso militar dos aviões.
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| Santos-Dumont |
Além daqueles que se suicidaram, a história da
aviação é marcada pelas mortes violentas de homens cujo desejo de voar estava
acima da vontade de viver e era mais forte que o medo de morrer.
Nos primórdios da aviação, tem-se o exemplo de
Pilâtre de Rozier, o primeiro aeronauta do mundo que, estupidamente, morreu em
15 de Junho de 1785, ao tentar a travessia do Canal da Mancha da França para a
Inglaterra, contrariando os ventos...
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| Pilâtre de Rozie |
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| Lilienthal |
Mais recentemente, temos Otto Lilienthal, o qual
nasceu em 23 de Maio de 1848 e, literalmente, saltou para a morte em 10 de
Agosto de 1896, em Berlim... Antes do fatídico salto, confidenciou Otto ao
escritor Meyer Förster (segundo escreveu PAUL KARLSON) que, por vezes, sentia
medo do voo em seu aparelho: “Sou chefe de família e tenho outros deveres
que não o de descobrir o voo para a humanidade. Se fôsse mais moço e sòzinho,
talvez progredisse mais”, disse Otto. Porém, não deixou as
experiências de lado e, mesmo no leito da morte, não manifestou arrependimento:
Socorrido à clinica do cirurgião berlinense Bergmann, suas últimas palavras
teriam sido “Sacrifícios são necessários”.
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| Exupéry |
Há não muito tempo também, Antonine de Saint-Exupéry preferiu arriscar a
morte no céu, a ficar na terra sem poder voar. Na verdade, o pai do Pequeno
Príncipe vivia perseguido por uma melancolia da qual só conseguia se afastar quando
entrava no avião.
Que tipo de sentimento associado à aviação fez
Pénaud, Giffard e Santos-Dumont eliminarem a própria vida? Qual a natureza do
sentimento que fez Pilatre, Lilienthal e Exupéry preferirem o voo à vida?
A melancolia, vocábulo derivado do
grego (melagcholía). Melan (ós) significa "negro, sombrio, triste,
funesto" e cholé quer dizer "bílis, fel, veneno".
Na sua própria origem, o fermento da aviação na
aerostação se liga à fuga, ao escapismo dos problemas da Terra,
do mundo, em busca de uma felicidade metafísica no céu...
Assim, deve ser
observado que a parte mais substancial da aeronáutica está ligada à França pré-Revolucionária
e, portanto, a um período de extrema baixa auto-estima do povo francês que,
então, muito provavelmente, encontrava nas recém-descobertas máquinas voadoras
uma espécie de lenimento à pobreza, um bálsamo para opressão política das
classes dominantes que esmagavam o povo francês com impostos injustos...
A partir da primeira demonstração pública com
balão, realizada em Annonay (em 05 de Junho de 1783) pelos irmãos Montgolfier,
Paris se tornou febril pelo voo...
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| irmãos Montgolfier |
As experiências foram se sucedendo umas atrás das
outras, arrastando multidões delirantes para as praças públicas, trazendo-lhes
dias de intensa euforia que, momentaneamente, faziam a oprimida população
esquecer do despotismo monárquico, imoral e esbanjador, ao mesmo tempo em que
proporcionava à desprezada burguesia certo prestígio porque era essa classe que
tinha o dinheiro necessário para custear as experiências com os balões.
O desejo pelas máquinas voadoras, por certo, era
uma escapatória, um lenimento para o sofrimento político de um povo que vivia
sem liberdade...
Realmente, voar é uma metáfora de liberdade por
trás da qual pode haver a solidão, a melancolia... Quem são o Pequeno
Príncipe e a Fernão Capelo Gaivota senão a projeção de Saint-Exupéry
e Richard Bach? Aquele surgiu em um desolado deserto, enquanto este vivia
solitário no mar aberto... O que significa a "morte" deles, senão a
transmudação da idéia de libertação?
É curioso notar que poucos anos separam a primeira
experiência com balão da eclosão da Revolução pela queda da Bastilha, em 14 de
julho de 1789, quando o povo de París saiu às ruas para protestar contra o
regime monárquico opressor, invadindo a Bastilha (fortaleza que simbolizava
o Absolutismo real), libertando os presos e, assim, derrubando o prédio, fatos
que simbolizam o início da Revolução Francesa.
Realmente, a idéia do voo, que também se
expressa por metonímia através da máquina voadora (avião, balão etc.), tem um
conteúdo simbólico da aspiração espiritual de libertação.
Nas palavras de JUNG, o avião “evoca, então, as
forças cósmicas do inconsciente coletivo, perante as quais o ego consciente
mede sua impotência. O avião pertence ao domínio do ar e materializa uma força
deste elemento. É o domínio das idéias, do pensamento, do espírito”.
Em interessante lição, JEAN CHEVALIER e ALAIN
GHEERBRANT doutrinam que “ao mesmo tempo rápido, delicado em seu mecanismo e
difícil de manejar, o avião faz lembrar justamente o comportamento na vida, que
se assemelha a uma grande aventura iniciática. Dirigir bem exige competência e
domínio de si suficientes para permitirem evoluir nos espaços infinitos (...).
Aviões que evoluem no céu revelam forças espirituais, potências cósmicas percebidas
em nosso espaço psíquico e que se liberam”.
De certa forma, portanto, o amor pelo voo, além de
denotar o desejo de liberdade, também realça “a vontade de afirmar o seu
poderio no céu apenas para compensar um sentimento de impotência na terra”.
Existe, por tudo isso, um mecanismo psicológico
acentuadamente diferente entre as pessoas que têm paixão pela aviação e aquelas
que, em lado radicalmente oposto, ostentam medo de avião.
Quanto aos que têm paixão pelo avião, existe sempre
o risco da tendência à descompensação, que se traduzirá na intrepidez em
voo ou, uma vez em terra, no transtorno depressivo, pela impossibilidade de
distinguir a máquina de voar e seus limites do desejo de libertação que não tem
limites, ou pela confusão da falta de voo com a inexistência de perspectiva de
vida.
Talvez, assim, possamos compreender a coragem dos
citados aviadores, não só para envidar suas viagens no céu, como também para
colocarem um fim à própria vida na Terra...
Enfim, resta dizer que, do ponto de vista estrito
da segurança de voo, a perda da vida de Pilâtre e Otto deve se transmudar, para
os estudiosos da ciência aeronáutica, especificamente, da teoria do acidente,
em uma lição contínua de dedicação à perfeição, o que equivale dizer à redução
probabilística de acidente ao menor patamar possível; se não for encarado dessa
maneira o sacrifício da vida de Pilâtre e Otto, dentre tantos outros, a morte
desses homens não será mais do que simplesmente história, algo que jaez em um
distante passado, que para nada serve senão para a literatura.
Pilâtre de Rozier, Jean-Pierre Blanchard, Augusto Severo,Otto Lilienthal, Salomon August
Andrée e todos os demais heróis mortos da ciência aeronáutica devem permanecer
vivos, nos dias de hoje, não só na memória da história aeronáutica, mas,
principalmente, devem ser lembrados na prática diária da cultura de segurança
de voo. Somente assim a vida que eles doaram terá valido a pena.