ACIDENTE: ETIMOLOGIA
O estudo etimológico do vocábulo acidente é
interessante.
Trata-se de palavra de origem latina, accidēns,
que é particípio do presente do verbo accĭdō, o qual significa “cair
para” ou “cair sobre”.
Logo, acidente significa caído sobre (alguma
coisa).
Acidente é, então, em um
primeiro momento, cair. Mas, por que acidente provém de cair?
Devemos investigar a relação entre cair e acidente.
Cair também vem do Latim, “caděre”, que
significa “ir ao chão”. Observamos que “caděre” se liga ao mesmo
radical de “caelum” (que significa “céu”); é uma ligação muito
lógica, posto que a idéia de cair pressupõe altura ou céu,
já que o que cai vem do alto, do céu ou de cima, portanto.
Assim, mais remotamente, acidente significa “caído
do céu”.
Histórica e semanticamente[1], sabemos que acidente significa um acaso, mas não um acaso
neutro, porque acidente traz uma áurea de negatividade, tem uma certa conotação
de “desgraça, infortúnio, falta de sorte etc”.
Como, então, relaciona-se esse sentido atual de
acidente (“acaso infeliz”) com a sua etimologia ou com o seu significado
mais antigo de “caído do céu”?
Talvez, a conotação de casualidade ou infelicidade
do acidente esteja intimamente ligada a um sentido muito especial que os
romanos davam ao verbo cair, o qual atravessou os séculos até os dias de
hoje: Cair se relaciona com os julgamentos da Justiça.
Analisando o vocábulo julgamento, constatamos que a
idéia de julgar instiga no espírito do homem dois sentimentos bem claros, o de divindade,
superioridade, altura (céu), porque julgar é o ato de Deus (que está no céu
ou no alto), e o de incerteza (acaso) de qual será o julgamento (que é
desconhecido ou ignorado). Começamos, assim, a estabelecer algumas ligações
entre cair (algo que vem do céu, de cima etc.) com julgar (algo que também vem
do céu, do alto etc.).
Ainda, da idéia de julgar, como vimos, vem-nos o
sentimento da incerteza do que “cai do céu”.
Assim, encontramos a conotação de casualidade
existente no verbo cair, do qual acidente é uma flexão (particípio).
E onde está o halo negativo que cerca o verbo cair
e, por conseguinte, a sua variante acidente? Vejamos.
Nos litígios romanos, cair designava o pior, pois
era empregado no caso de ser o litigante condenado. Caído era o condenado pela
Justiça. Para os romanos, queda, tombo, sucumbência e condenação
se equivalem, tanto é que os romanos se referiam à perda de um processo
através, justamente, do verbo cair: “causa cadere”, “ in judicio
cadere” ou, simplesmente, “cadere” .
Então, quando cair era empregado em um julgamento,
significava a idéia “de um mal que veio do céu”.
Portanto, acidente é, no seu berço semântico, “o
mal que caiu do céu sobre uma pessoa”, pressupondo o julgamento divino que,
sendo-lhe contrário, converteu a incerteza de um dano em um prejuízo efetivo.
Aliás, em suas lições de Latim, ANTÓNIO GOMES
FERREIRA ensina que o “c” de “cair” com a conotação de “condenação”
levou os romanos a designarem essa letra de seu alfabeto como a “littera
tristis”, ou seja, a letra triste... O contrário da letra “a” de “absolvo”
(nos julgamentos).
Curiosamente, vemos que a história etimológica de
acidente reúne as idéias de céu (a divindade), julgamento (a incerteza)
e queda (a perda).
1.
Semântica
é o estudo do significado, isto é a ciência das significações das palavras ou o
estudo da relação entre a palavra e o que ela significa.


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